Dia do Refugiado: Desde 2015, empresa de call center já contratou mais de 2 mil refugiados e projeta ampliar inclusão no Brasil
Signatária do Pacto Global da ONU, a companhia investe na contratação, capacitação e desenvolvimento profissional de refugiados em SP e Curitiba. Atualmente, cerca de 700 dos seus 5 mil colaboradores são refugiados, com meta de alcançar 1 mil nos próximos anos.
Miccel Manrique é venezuelana e deixou seu país há 13 anos. Na época, ela cursava Direito, mas as dificuldades econômicas impediram a continuidade dos estudos em seu país de origem. O Brasil sempre esteve em seus planos e, por ser praticante de capoeira por muitos anos, admirava a cultura brasileira e sonhava em conhecer de perto essas raízes.
“A modalidade fazia parte da minha vida e eu queria viver isso de perto. Hoje, meus filhos nasceram aqui, são brasileiros e eu sinto que esta também é a minha casa”
Conta a refugiada que, atualmente, trabalha na Foundever – uma empresa que contrata, além de brasileiros, refugiados de diversas nacionalidades nas suas operações de contact center em São Paulo e Curitiba desde 2015.
Casos como o da jovem ajudam a somar as 454.165 solicitações (2015 a 2024) de reconhecimento da condição de refugiado no país. O que corresponde a 95,0% do total registrado no Brasil até o final do ano, segundo dados do Refúgio em Números 2025, feito pela OBMigra – Observatório das Migrações Internacionais.
Atualmente, Miccel atua como analista em uma operação na Foundever e soma mais de cinco anos de trajetória, entre duas passagens pela empresa, separadas apenas pelo nascimento de sua primeira filha. “Aqui existe um ambiente muito humano. As pessoas querem conhecer a nossa história, nossa cultura e fazem a gente se sentir acolhido. É um lugar onde realmente nos sentimos parte da equipe”, afirma.
Empresa que contrata desde 2015
Com quase 700 pessoas em refúgio em seu quadro de colaboradores, sediadas em Curitiba e São Paulo, a companhia em que Miccel trabalha, em parceria com o ACNUR (Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados) recruta, capacita e oferece plano de desenvolvimento para esses grupos que são compostos por mães solo, 50+, jovens entre outras minorias.
A empresa, sendo uma das líderes de contratação formal de refugiados no país, assinou o compromisso do Pacto Global com a ONU de aumentar seu quadro de pessoas em refúgio para 1 mil nos próximos anos. A marca, que comparece com frequência em Pacaraima, no estado de Roraima, também ajuda na Operação Acolhida para melhor entender (de perto) o papel de como fazer essa gestão internamente.
Em seus históricos de atuação, a Foundever participou do evento Cartagena +40, promovido pelo ACNUR, ao lado de chefes de Estado da América Latina e do Caribe como uma das únicas empresas “porta-voz referência” para discutir a inclusão de refugiados no mercado de trabalho.
O CEO da Foundever no Brasil, Laurent Delache, explica que a companhia tem o compromisso de ampliar continuamente a inclusão de refugiados de diferentes nacionalidades em suas operações. Isso, porque, mais do que gerar oportunidades de emprego, ela busca promover o desenvolvimento profissional dessas pessoas por meio de capacitação personalizada, treinamentos acessíveis e iniciativas que respeitem as necessidades individuais de cada colaborador. “Nosso objetivo é construir um ambiente verdadeiramente acolhedor, oferecendo suporte, integração e os recursos necessários para que todos possam desenvolver seu potencial e construir uma trajetória de sucesso dentro da empresa”, afirma o líder da companhia.
Desafios e a rede de apoio
Nos últimos anos, empresas têm se reunido com o ACNUR para um engajamento maior nas contratações desses grupos vulneráveis de diversas nacionalidades que chegam ao Brasil. O apoio para essas organizações vem do Fórum Empresas com Refugiados que, por meio de suas atividades ao lado de importantes entidades, já promoveu 17 mil pessoas refugiadas contratadas pelos integrantes, em 2025 – um crescimento expressivo de 41% em relação a 2024.
A iniciativa de inclusão de pessoas em situação de refúgio na Foundever vai além da contratação, já que há um programa, constantemente aprimorado, que contempla ações de recrutamento, capacitação, desenvolvimento e integração profissional, gerando impactos positivos em toda a organização. Como reflexo dessa evolução, a companhia fortaleceu sua agenda de diversidade, equidade e inclusão, estruturando um comitê dedicado ao tema e promovendo encontros periódicos para ouvir, compreender e incorporar as experiências de grupos minorizados. O objetivo é aperfeiçoar continuamente as práticas de gestão, acolhimento e desenvolvimento desses profissionais.
“Conviver com pessoas de diferentes culturas, histórias e perspectivas torna a empresa mais humana, inovadora e preparada para os desafios do mercado. Vale lembrar que essa troca tem contribuído para o fortalecimento da nossa cultura organizacional, com avanços em transparência, inclusão, bem-estar e desenvolvimento de pessoas. Também impulsionou a criação de políticas mais robustas de respeito e valorização da diversidade, refletindo diretamente na satisfação dos colaboradores e na retenção de talentos”, afirma o CEO da Foundever no Brasil, Laurent Delache.
Já Johalbert Marcano Ruiz chegou ao país há quase cinco anos. Estudava Engenharia Mecânica na Venezuela, mas a pandemia e a instabilidade econômica mudaram seus planos e, com isso, a decisão de migrar foi difícil, mas motivada pela busca de oportunidades e estabilidade.
“No início, você sente medo porque não consegue se comunicar. É frustrante não entender tudo o que acontece ao seu redor. Mas, aos poucos, você aprende, ganha confiança e começa a se sentir parte daquele lugar”, lembra Johalbert.
O venezuelano ressalta que, quando entrou na Foundever, a vida dele mudou porque teve a estabilidade que procurava desde que chegou ao Brasil. Johalbert sonha em trazer mais familiares para perto.
“Quero continuar crescendo profissionalmente, conquistar meu apartamento e ajudar minha mãe e minha irmã. É mais fácil apoiar quem a gente ama quando estamos estruturados”, diz Johalbert..
Histórias como essas reforçam a importância da inclusão de refugiados no mercado de trabalho. Mais do que oferecer uma oportunidade profissional, iniciativas de acolhimento permitem que talentos reconstruam suas vidas, contribuam com suas experiências e fortaleçam ambientes corporativos mais diversos, humanos e inovadores.
Rômulo Pontes
Head de imprensa e Editor Chefe do podcast Entre Líderes
Jornalista formado pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), atua como Head de Imprensa na N.A. Comunicação e Marketing, respondendo por contas em governança corporativa e gestão de pessoas, direito, saúde, educação, indústria e representação de micro e pequenas empresas. Editor-chefe do podcast Entre Líderes, coautor do livro "Comunicação Integrada para o ESG" e com passagem anterior pela área comercial, trajetória que moldou sua visão de que comunicação sem entendimento do negócio do cliente não constrói reputação duradoura.
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